A zona euro habituou-nos mal. Andar de um país para o outro e não ter de fazer contas de cabeça com câmbios que mudam todos os dias é uma maravilha; talvez uma das poucas maravilhas, mas isso não é tema deste post. Na zona Euro é tudo diferente: língua, cultura, cor da pele. Tudo menos a moeda, claro, que na Europa acumula o papel de veículo de germes com o de referência cultural europeia. Tudo nos separa, mas desde que pensamos em moedas iguais que nos sentimos um pouquinho mais europeus; e nisso até o nome da moeda ajuda.
E por que é que escrevo isto? Chegado ao Brasil há quase um mês - faz amanhã - ainda não me consegui habituar à moeda brasileira. Aqui há moedas até R$1 (0,43€), mas não existem moedas menores que R$0,05, o que faz com que tudo o que não seja conta redonda, seja arredondado. Notas, existem a partir de R$2 (0,86€).
Ora, com notas a partir de R$2 era suposto que as coisas fossem baratas. Mas não. Na verdade, continuo com dúvidas de que as moedas sirvam para alguma coisa no Brasil que não seja o facilitar dos trocos, já que quase nada custa tão pouco que possa ser pago com moedas: um bilhete de ônibus em Santos custa R$2,65, por exemplo. Resultado? A carteira vai crescendo em volume e peso, mas o valor dela cai vertiginosamente para zero.
E não dá para nos livrarmos das moedas? Sim, o ônibus até uma boa desculpa para despejar 65 centavos de peso da nossa carteira, mas procurá-los entre as moedas brasileiras não é tarefa nada fácil. Para além de se acumularem, não têm um padrão e moedas do mesmo valor podem ter formas diferentes, o que dificulta bastante encontrar o valor certo.
Isto, claro, é conversa de miúdo rico e estas linhas provavelmente chocarão pelo facto de serem escritas num país em que o salário mínimo é de R$540 (234€). Mas se fizermos o paralelo com Portugal (onde o salário mínimo não chega a 500€) e falarmos simplesmente no valor nominal da moeda, o Brasil tem uma nota a mais: a de R$2, que nós substuímos por uma moeda.
Ora, o ter uma nota de valor mais baixo faz algum sentido para controlar o consumo desenfreado (lembro-me de Itália ter reclamado a existência de uma nota de 2€, há uns anos), mas entre o discurso e a prática a ideia perde-se, porque como já falei,
até o governo chegou a incentivar o consumo irresponsável.
E de que é que é indício o facto de um bilhete de ônibus se pagar com nota? Isso mesmo, que andar de ônibus não está ao acesso de todos. E atenção, falo de ônibus, em que não existe ar condicionado e onde, na maior parte das vezes, as pessoas andam em modo lata de sardinha. Isso, imagine-se, é um privilégio. Por essa razão, existe tanta gente que faz dezenas de quilómetros a pé, pela auto-estrada, no caminho casa-trabalho-casa. E isso é das coisas que mais me mordem no estômago aqui no Brasil.