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e ele por lá andava aos arrastões, aos caídos, por aquela casa que nunca se lembrava de arejar. nem luz, nem corrente de ar, nem. só ele, para ali e para cá, num compasso em tique-taque de semi-agonia: entre os pulmões desfeitos em expectoração a cada passo e cada passo no gemer do soalho desfeito. anda só, nem ele sabe como sobrevive. se passaram dias ou anos, se foi ontem ou há muito tempo; não sabe. anda só, para ali e para cá. não conta os dias nem os passos, esqueceu-se das paredes brancas que já não o são - todos os dias mais pretas-húmido e verdes ali e cá; não sabe de onde vem quem lhe rouba o ar, só que lhe custa respirar. e respira e assobia e tosse, há-de passar.


tudo fechado desde que ela fugiu. tudo fechado de cima a baixo a ver se ainda a prende num rasto de perfume pelo corredor ou nas almofadas do sofá. ela andará para ali e para cá e ele arrasta-se como se se arrastasse atrás dela. é um sopro para ali e para cá e ele corre, sempre mais ofegante, arrasta-se e encosta-se e cai no sofá. e o pó salta e dança em torno dos magros raios de sol que coriscam entre os pedaços de casa que se foram desfazendo a casa passo. ele tosse, mas não se levanta. há-de passar.

o valor do dinheiro

A zona euro habituou-nos mal. Andar de um país para o outro e não ter de fazer contas de cabeça com câmbios que mudam todos os dias é uma maravilha; talvez uma das poucas maravilhas, mas isso não é tema deste post. Na zona Euro é tudo diferente: língua, cultura, cor da pele. Tudo menos a moeda, claro, que na Europa acumula o papel de veículo de germes com o de referência cultural europeia. Tudo nos separa, mas desde que pensamos em moedas iguais que nos sentimos um pouquinho mais europeus; e nisso até o nome da moeda ajuda.

E por que é que escrevo isto? Chegado ao Brasil há quase um mês - faz amanhã - ainda não me consegui habituar à moeda brasileira. Aqui há moedas até R$1 (0,43€), mas não existem moedas menores que R$0,05, o que faz com que tudo o que não seja conta redonda, seja arredondado. Notas, existem a partir de R$2 (0,86€).

Ora, com notas a partir de R$2 era suposto que as coisas fossem baratas. Mas não. Na verdade, continuo com dúvidas de que as moedas sirvam para alguma coisa no Brasil que não seja o facilitar dos trocos, já que quase nada custa tão pouco que possa ser pago com moedas: um bilhete de ônibus em Santos custa R$2,65, por exemplo. Resultado? A carteira vai crescendo em volume e peso, mas o valor dela cai vertiginosamente para zero.

E não dá para nos livrarmos das moedas? Sim, o ônibus até uma boa desculpa para despejar 65 centavos de peso da nossa carteira, mas procurá-los entre as moedas brasileiras não é tarefa nada fácil. Para além de se acumularem, não têm um padrão e moedas do mesmo valor podem ter formas diferentes, o que dificulta bastante encontrar o valor certo.

Isto, claro, é conversa de miúdo rico e estas linhas provavelmente chocarão pelo facto de serem escritas num país em que o salário mínimo é de R$540 (234€). Mas se fizermos o paralelo com Portugal (onde o salário mínimo não chega a 500€) e falarmos simplesmente no valor nominal da moeda, o Brasil tem uma nota a mais: a de R$2, que nós substuímos por uma moeda.

Ora, o ter uma nota de valor mais baixo faz algum sentido para controlar o consumo desenfreado (lembro-me de Itália ter reclamado a existência de uma nota de 2€, há uns anos), mas entre o discurso e a prática a ideia perde-se, porque como já falei, até o governo chegou a incentivar o consumo irresponsável.

E de que é que é indício o facto de um bilhete de ônibus se pagar com nota? Isso mesmo, que andar de ônibus não está ao acesso de todos. E atenção, falo de ônibus, em que não existe ar condicionado e onde, na maior parte das vezes, as pessoas andam em modo lata de sardinha. Isso, imagine-se, é um privilégio. Por essa razão, existe tanta gente que faz dezenas de quilómetros a pé, pela auto-estrada, no caminho casa-trabalho-casa. E isso é das coisas que mais me mordem no estômago aqui no Brasil.

ensaio para o carnaval do rio em caravana, roadtrip até ubatuba

passar o fim-de-semana no paraíso

o torto

Santos, como a maior parte das cidades do litoral, tem monstros de betão virados para a praia; e eu não devo sequer falar muito disso, porque vivo num deles. Mas se não fossem os monstros, a verdade é que este post não existiria e, quanto mais não seja, que eles existam para nos rirmos um bocado deles.

E onde é que está a piada quando falamos de construções que deviam ser ilegais? No facto de o solo do litoral santista ser impróprio para a construção de edifícios altos, claro. Na verdade, para os sustentar devidamente, as fundações deveriam ser quase tão profundas quanto a altura do prédio.

Claro que isso seria uma chatice e custaria um dinheirão, então o que é que a construção santista (dominada por portugueses) fez? Construiu na mesma claro. O resultado é caricato e faz corar a própria torre de Pisa: uma sucessão de prédios meios tombados todos na mesma direcção, numa ameaça de efeito dominó.

Há um, inclusive, que de tão torto dá nome a um bar. Muito mais curioso que o nome, é ouvir falar da deslocação geográfica do próprio bar: já esteve no piso térreo, hoje é preciso descer umas escadas para lá chegar. O ambiente, claro, e para não fugir ao cliché, é bem underground.

O meu prédio, apesar de ter uma inclinação bem mais ligeira, também sofre disso e até ontem andamos a cozinhar nas bordas mais próximas do fogão (pusemos calços, ontem), porque o azeite escorria sempre no sentido da inclinação. Ainda assim, nem tudo é mau: de manhã, ainda a dormir, é a gravidade que me leva do quarto até à casa de banho.

a selva

o dia em que virei corintiano

room with a view #2

águas de fevereiro



Já aqui tinha escrito: Santos é uma cidade de água. É ilha e, por definição, está rodeada dela por todos os lados. Como se não bastasse, é atravessada por vários canais e abraçada por uma mata densa. Diz toda a gente que Santos é um penico e eu lembro-me da minha Braga, penico do céu português.

Hoje choveu, a segunda vez a sério desde que estou aqui (a foto é da primeira). Na primeira vez bastou meia hora para inundar tudo e ainda menos para voltar a secar. Logo aí ouvi, vi e senti a trovoada mais potente de sempre. Hoje choveu quase duas horas, inundou ainda mais e a trovoada voltou a entrar para o meu Guiness pessoal; houve um que, de tão forte e de tão perto, fez tremer ligeiramente o meu prédio. E agora, menos de duas horas depois, foi como se nada tivesse acontecido. Abençoada tropicália.

a minha parte preferida do Brasil é o fim-de-semana

Preguiçar na cama sabe bem em qualquer altura do ano, mas sabe especialmente bem nos dias em que não nos pesa em cima o calor dos cobertores. Portanto, o fim-de-semana ideal começa com preguiça espraiada pela cama. E claro, porque vem bem a propósito e fica do outro lado da rua, espraia-se a preguiça pela praia, também.

Este fim-de-semana começou assim, mas continuou ainda melhor. Primeiro uma churrascada de boas-vindas que se esticou desde a tarde até ao início da madrugada com carne e vegetais na brasa e cerveja e caipirinha à Danilo bem gelados. Sobraram discussões acesas sobre futebol e regionalismos, mas a malta ficou amiga na mesma. Embora, claro está, de entre todos era eu o único com razão.

Depois houve MPB ao vivo no Galeria, como já tinha havido no fim-de-semana passado, e a noite terminou na praia, quase quase com o nascer do sol. Houve amanhecer, mas sol nem vê-lo, como tem sido hábito nos dias de Santos: há calor para exportar, mas o céu costuma estar coberto de nuvens.

Domingo foi de acordar relativamente cedo (face à hora de deitar) e os exercícios de preguiça foram realizados directamente na praia. Ao final da tarde, matiné no Moby Dick, uma discoteca da moda a duas quadras de casa. Acabou por ser uma das melhores festas a que já fui, especialmente pelo último espectáculo: a roda de samba (admito, não consigo gostar de pagode), em jeito de treino para o Carnaval do Rio.

Infelizmente, fim-de-semana que é bom, acaba muito rápido. Restam cinco dias de mergulhos ao fim da tarde. A vida é injusta.

o mar do lado de cá

Santos é uma cidade de mar e eu gosto do mar. São sete quilómetros de praia urbana. É Oceano Atlântico, mas as semelhanças com o mar de Portugal terminam aí: como a língua, também o nome dos oceanos é igual. A areia nem é grossa-e-de-magoar-os-pés como a da Póvoa de Varzim nem fina-e-de-enterrar-os-pés como a do Sul, é fina-e-compacta-como-se-só-alguns-centímetros-de-areia-cobrissem-um-areal-de-cimento. A água, ufa, até me custa dizer-vos: parece uma sopinha com sal a mais, mesmo ao fim do dia.

Além de sete quilómetros comprimento, o areal deve ter uns quinhentos metros de largura. Espaço suficiente para as concessionárias (que são roulottes com esplanada, na verdade), para os banhistas, para os jogadores da bola ou outros desportos de areal ou malta que só vai lá para correr. Há espaço para todos e ainda sobra a maior parte. Aí por vezes não se encontra lugar entre tantas toalhas, para-vento e guarda-sol, aqui há lugar para todo o mundo e para quem mais vier depois. Ah, e aqui não há vento, poucas vezes corre brisa.

Lembro-me muitas vezes da Praia da Barra e do vento-que-faz-a-areia-cortar-as-pernas-e-embaraçar-o-cabelo, lembro-me também do mar bravo das praias do Norte, das ondas enormes, de ficar sem pé de um momento para o outro, de o mar egoísta que puxa tudo o que consegue. Lembro-me dos pés enterrados na areia, de resistir ao arrastão do mar.

Aqui também não existe. As ondas são pequenas (e aqui até começou o surf brasileiro), anda-se sei lá quantos metros mar adentro e a água continua abaixo da cintura, o mar nem puxa nem empurra, a água não arrefece e à noite até é mais quente que a temperatura ambiente. Aqui o mar é brasileiramente relaxado e não quer nem saber. E percebe-se facilmente: mar que beija o Brasil não podia estar melhor.

Mas o mar brasileiro não cheira à maresia portuguesa, não rebenta na areia nem se estende no estalar das borbulhas de espuma. Os mares que nos separam são um mesmo mar que nos une, quase a direito.

comprar o país em parcelamentos

Uma das coisas que mais me impressionaram no Brasil foi a facilidade com que as pessoas se conseguem endividar. Aqui é comum comprar tudo a prestações (parcelamento), inclusivé artigos que custam menos de 100 reais (44€) em que é possível pagar em dez vezes. Há uns dias, por exemplo, quando comprava uns calções de banho que custavam 46 reais (20€), perguntaram-me se não queria parcelar em duas vezes.

Nos últimos anos foram milhares (provavelmente milhões) os brasileiros que conheceram uma ligeira ascensão social: de classe baixa para média-muito-baixa. Ainda assim, e apesar de muito ténue, esta diferença representou um aumento exageradíssimo do número de consumidores ávidos de comprar tudo o que sempre desejaram.

Esta nova nuvem de consumidores, geralmente de baixas habilitações, têm-se deixado iludir pela facilidade de adiar o pagamento e vão acumulando dívidas de 10 e 20 reais que, por parecerem insignificantes, tornam-se facilmente bolas de neve de irresponsabilidade financeira. O pior é que esta forma pouco clara de fazer negócio tenha sido subtilmente apoiada pelo governo para fomentar o consumo interno (apesar de já se terem arrependido) e continua a ser usado pelos vendedores de produtos e serviços dada a eficiência desta forma de marketing de produto; e sai muito mais barato e lucrativo ao vendedor fazer promoção ao preço dissimulado que ao próprio produto.

O problema a curto, médio prazo conhecemo-lo por experiência própria, pelo endividamento do estado e das famílias portuguesas, e pode mergulhar o Brasil numa nova (e absolutamente desnecessária) crise social. E o problema é que o Brasil parece viver em memória de onda curta. Esquece-se rapidamente do passado e insiste numa vida económica de montanha russa. Oxalá me engane.

santos, o primeiro post



Ando a adiar há alguns dias o primeiro post da vida no Brasil. É difícil começar, porque a primeira vez tem de ser perfeita e depois é uma sucessão de "pffs", amarrotar e deitar ao lixo. Vai agora, porque já cá estou quase há uma semana e há coisas de que não me queria esquecer. Este post é também para todos e todas que me perguntam que tal é isto e às quais tenho muitas vezes respondido com "é quentinho". Aviso: Este post e os que o seguirão poderão conter palavras em português do Brasil.

Santos, dizem, é uma ilha. Não parece, porque está quase colada à parte continental e fica logo abaixo das montanhas que a separam de São Paulo. Das montanhas, aliás, uma das imagens mais bonitas que já vi na vida: cascatas, canais, lagos, mar e uma cidade entre o nevoeiro. À saída do ônibus, uma nuvem de calor tal que pensava ser do motor do próprio ônibus: mas não, o ônibus foi e a nuvem ficou. Era de Santos, toda a humidade.

Felizmente, a humidade, que chegava a cortar a respiração, baixou nos dias seguintes e os dias têm estado mais secos. Continua é um calor do caraças e, por exemplo, no Domingo estavam 30º às 23 horas. Calor horrível e suar sem fazer nada, mas pelo menos dá para alguns mergulhos pós-laborais num mar que parece sopa, apesar de serem já 20 horas.

O Brasil é fantástico, todos dizem e agora digo eu também. O Brasil e os brasileiros. Em nenhum outro país do mundo conseguíamos encontrar casa no próprio dia em que chegamos, são de uma generosidade e simpatia imbatíveis.

No Sábado fui à festa de três anos da filha do meu patrão e à noite saímos com os meus colegas de trabalho até ao centro. Mostraram-me os cortiços e falaram-me dos palafitos (falarei disto num outro post) e acabamos a dançar MPB tocada ao vivo num bar em que o porteiro é o Sylvester Stalone. Domingo era dia de derby Palmeiras-Corinthians e vi o jogo com o meu patrão, corintiano ferrenho. No intervalo, comi um dos melhores bolinhos de bacalhau e sempre: o dos afamado "Toninho"; adorei também o pastel de carne seca e catupiri.

Segunda comecei a trabalhar e desde aí que, apesar do cansaço, ando mesmo entusiasmado com o meu trabalho e com o espírito de missão que guia a empresa/ong para que trabalho. Como se o trabalho não bastasse, o local de trabalho é fantástico. Fica aí uma foto que o demonstra: é impossível não andar inspirado num lugar assim.

room with a view #1

feliz natal, y'all

a room with a view

o valor do vento

está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
o vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
o vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
o vento actualmente vale oitenta escudos
partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

ruy belo

o valor do vento

"O valor do vento" é um belíssimo poema de Ruy Belo que reproduzo aqui. A partir de hoje é também nome de blogue, o blogue que substitui o quasi-heptaniversariante, e há vários meses em decomposição lenta, vad.

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